quinta-feira, 10 de março de 2011

11. LA VOSTRA RITA / Não brinque com o mosquito

L A   V O S T R A   R I T A –  S-10

lançamento na Itália:  1966   -  nunca lançado no Brasil.

1. La zanzara [Wertmüller-Gaspari-Marrocchi-Lunati] Luis Enriquez; Alessandroni
2. I tre porcellini [Who’s afraid of the Big Bad Wolf?] Frank Churchill-Ann Ronell; v.: Misselvia
3. Col chicco [Castellano-Pipolo-Pisano] Franco Pisano; Alessandroni
4. Mamma dammi la panna [I saw Linda yesterday] Dickey Lee-A.Reynolds; v.: Bonicatti
5. Siam’ tutti per uno [Wertmüller-Rota] Luis Enriquez e orquestra +il Coro di Voci Bianche diretto da Renata Cortiglione
6. Io cerco la Titina [Daniderf-Frati] Franco Pisano e orchestra; Alessandroni

1. Perchè due non fa tre [Amurri-Marchetti] Gianni Marchetti; Alessandroni
2. Cam cam cammello [Migliacci-Gianni Meccia]  Luis Enriquez; Alessandroni
3. Gian Burrasca  [Libertà] Lina Wertmüller-Nino Rota - Luis Enriquez e orchestra
4. Con un poco di zucchero [A spoonful of sugar] R.M.Sherman-R.B.Sherman; v.: Amurri-Pertitas
5. Orazi e Curiazi [Carlo Rossi-Marrocchi-Lunati] Ruggero Cini; 4+4di Nora Orlandi
6. Il bersagliere [Carlo Rossi-Marrocchi-Lunati] The Talismen; 4+4 di Nora Orlandi


Me lembro bem o dia que recebi o vinil 33 giri de ‘La Vostra Rita’ de um pen-pal italiano em 1966. Apesar de já conhecer um terço do album, ‘La zanzara’, ‘Perchè due non fa tre’, ‘Gian Burrasca’ [que estranhamente veio com novo título, ‘La libertà’ no selo e contra-capa] e ‘Orazi e Curiazi’, eu gostei do disco.  Apesar de esperar algo que representasse mais minha idade de adolescente do que canções para crianças, eu gostei de várias faixas, a começar pela 'swingada' 'I tre porcellini', o yê-yê-yêMamma dammi la panna’ e a fantastica ‘Cam cam cammello’ que tem uma bonita melodia.

Muitos ‘pavonólogos’ acham que Rita se ‘perdeu’ artísticamente quando começou a dar muita importância ao seu público infantil em detrimento de jovens adolescentes que foi seu público inicial. Rita ‘descobriu’ o público infantil a partir da exibição da mini-série ‘’Il giornalino di Gian Burrasca’’ [O diário de João Furacão’], no qual ela interpretava um menino levado-da-bréca. Mais tarde no mesmo ano, ela estreava ‘Stasera Rita’, seu próprio show na TV, onde havia um segmento para i bambini,  onde ela interpretava uma ou duas canções infantis.

O problema de Rita e seu empresário é que o ‘tempo não para’ e a juventude italiana estava se sofisticando com a invasão dos conjuntos ‘beat’ inglêses.  Em fevereiro de 1966, aparece Caterina Caselli, sensação do Festival di San Remo, com uma ‘atitude beat’ e uma cabeleira loura [oxigenada] imitando a dos Beatles. Os conjuntos beat italianos, como Equipe 84 , the Rokes, I Giganti etc. começavam a dar a tônica para uma juventude mais sofisticada.  Rita e seu empresário pareciam perdidos em seu 'romance secreto’.  O público jovem procurava um simbolo de rebeldia... principalmente com as explosões anti-establishment que aconteceriam em 1968, o ano que parecia reprisar 1848. Rita contudo, ia cada vez mais se ‘refugiando’ em seu público ‘giovanissimo’.  Um êrro fatal.

Em fins de 1967, Rita dá o passo mais errado de sua carreira.  Iludida pela ‘luva’ [muitos milhões de liras] oferecida ao seu ‘passe’ pela Ricordi, ela abandona o ‘estábulo’ da RCA Italiana – com os melhores produtores e arranjadores da Península – transferindo-se para uma gravadora muito menor.  Rita ganhou a batalha, mas perdeu a guerra.  Na Ricordi, entre 1967 e 1969, um período que não cobriremos, Rita persistiu no erro de gravar para crianças.  Esse foi o prego final no caixão de sua carreira, que se afundou e nunca mais se recuperou.

La vostra Rita’, em 1966, no entanto, apesar de ser um album para crianças, foi muito bem produzido, diferentemente de suas gravações da Ricordi, que eram ‘meia-boca’, como se diz na gíria.  Bem, esqueçamos as elocubrações sobre a carreira de Rita e vamos, então dissecar faixa por faixa?


‘LA ZANZARA’ – velha conhecida nossa, tema de abertura do filme homônimo [vide ‘Rita o mosquito'].

‘I TRE PORCELLINI’ Who’s afraid of the Big Bad Wolf? – o acompanhamento de piano não deixa de lembrar as produções de Dozier & Lamont para The Supremes da Motown.  É a historinha famosa dos três porquinhos e suas peripécias para escapar do Lobo Mau que está sempre à espreita para comer os fôfos suínos.

‘COL CHICCO’ -  história fantástica meio parecida com o conto do pé-de-feijão que cresce e vai dar no céu, onde há um gigante.  Aqui é uma semente de uva que plantada na terra vai nascer uma vinha.  Dessa vinha, pegue uma uva magica e vá lá dentro da floresta onde mora um ogro horrível que fala com uma voz cavernosa:  ‘Sinto cheiro de crianças... e vou comer os meninos mal-comportados!’ Daí, Rita dá o conselho para que as crianças comam a uva mágica para que o ogro desapareça. Em tempos atuais em que a pedofilia está escancarada na Internet, seria perigoso uma música desse teor onde o ‘ogro diz abertamente que vai comer meninos!’  Não soa muito bem aos ouvidos!

‘MAMMA DAMMI LA PANNA’ – versão de ‘I saw Linda yesterday’, sucesso mediano de Dicky Lee, tendo chegado ao posto #14 da revista Billboard, em 29 DEZ 1962.  O arranjo italiano está bem parecido com o original.  Rita pede à mãe que dê-lhe a torta que acabou de assar para atirá-la na Susana, que ontem pôs sal no seu chá.  Diz ainda que até o filho de Apolo fez, um dia, uma bola com a pele de frango. nbsp;Como se vê, é um ‘non-sense’ total, mas que agradou a certo público infantil italiano que Rita cortejava nesse período logo após seu programa de TV ‘Stasera Rita’.

‘SIAM TUTTI PER UNO’ Somos todos por um! – Rita aqui canta com o Coro di Voci Bianche dirigido por Renata Cortiglione.  Vozes brancas? Me parecem ser vozes de meninos.  Da mini-série ‘Gian Burrasca’, que não apareceu no LP de mesmo nome, é uma faixa forte.  Um hino em que os colegas de Joãozinho Furacão juram fidelidade à sociedade secreta que fundaram para combater a tirania da diretoria do estabelecimento escolar.  O texto é do mais revolucionário possível: ‘Juro sempre morte aos opressores! Juro sempre morte aos professores!  Juro fidelidade por toda  eternidade a esta honorável sociedade!’

‘IO CERCO LA TITINA’ – a música do ‘Carlitos’ [Chaplin], que aparece no filme ‘Mosquito’, mas aqui tem um acompanhamento rockeiro, além de uma ‘bridge’ que não tinha no outro LP.  Titina dos anos 20 aqui se moderniza, pois parece-se com BB [Brigitte Bardot], usa mini-saia, camiseta e botinhas vermelho-e-azul lembrando a Union Jack [bandeira da Grã Bretanha].

PERCHÈ DUE NON FA TRE’ – lado B de ‘La zanzara’.  Não tem nada a ver com ‘Gian Burrasca’, mas também é um protesto duro contra a arbitrariedade dos adultos.  Embora não tão iconoclasta como ‘Siam tutti per uno’, é assim mesmo contundente.  Mas por que os adultos só criticam as coisas que fazemos?  Por que sempre temos que ter superiores?  Se a mãe está com raiva de algo, ela desconta suas frustrações nos dando uns ‘cascudos’? Por que isso é proibido, aquilo é banido e o outro é negado?  E isso não se deve e aquilo não se pode?  Um grito real contra o mundo opressor dos adultos.  Ainda bem que ainda não vivíamos em tempos de Columbine e outros massacres escolares.

‘CAM CAM CAMMELLO’ – A dura história de Arrás, um beduino que vaga pelo deserto com seu camelo à procura de sua namorada que fora raptada.  Mais dura que a vida de Arrás, era a vida do camelo que se consumava com a falta de água.  Musica do excelente Gianni Meccia [vide ‘Non c’è un pò di pentimento’ em ‘Meus 18 anos’] e letra do omnipresente Migliacci.

‘GIAN BURRASCA’ – [Libertà] – estranhamente ‘Gian Burrasca’, do album de mesmo nome lançado em janeiro de 1965, aqui aparece com outro título. Explicação? Nunca soube o porque disso!  João Borrasca, não é justo, não,  se apresente aos telespectadores da mini-série dizendo os vários apelidos pelos quais ele é conhecido:  me chamam de cataclisma, ciclone, tempestade, furacão e até de Nero, o imperador romano louco.

‘CON UN POCO DI ZUCCHERO’ – Com um pouco de açucar – Versão italiana de ‘A spoonful of sugar’ que Julie Andrews [en]canta no filme ‘Mary Poppins’.  Diferentemente da horrorosa ‘Supercalifragilisti...’ é uma melodia bonita e agradável ao ouvido.

‘ORAZI E CURIAZI’ – vide ‘Stasera Rita’ – música já comentada anteriormente.  Obviamente aqui veio para ‘encher’ o LP.  Aliás, um terço desse album é feito de ‘enchimentos’... como dizem os brasileiros: uma encheção de lingüiça da grossa.  Orazi eram três irmãos e os Curiazi irmãos de outra família.  Quando os romanos ocuparam a Terra d’Alba Longa, invés de assassinarem a população inteira, o estado-maior romano decide fazer uma luta mortal na arena local entre esses infelizes rapazes para saber quem sobreviveria.  Acontece que a irmã de um dos Orazi se apaixona por um galante dos Curiazi.  Em plena batalha empunhando lança, espada, escudo, tridente, rêde e flechas e tendo o Curiazi já deitado na areia quente, o malvado Orazi grita: ‘Trucide não apenas o Curiazi, mas nossa irmã também!’  E enfia a espada na barriga dos dois.  Alguns dizem que a violência é grande nos dias de hoje.  Imagine nos tempos romanos!  Ah, esse tipo de texto era considerado ‘infantil’ nos anos ’60.  Se bem que se pensarmos que, nos anos ’60, os norte-americanos jogavam toneladas de bombas Napalm incendiárias em crianças vietnamitas, até que os romanos não eram tão malvados assim.

‘IL BERSAGLIERE’ O tropa especial – Pela segunda vez em seu cancioneiro, Rita Pavone declara abertamente que gostaria de ter nascido homem.  Em ‘Si fossi un uomo’ [Se eu fosse homem] – vide ‘Meus 18 anos’ – Rita queria ser um ‘centro-avante internacional’.  Aqui ela diz que gostaria de ser um soldado de um batalhão especial.  A certa altura ela canta:   ‘Se eu tivesse nascido homem eu seria um cabo da tropa-especial que toca corneta no pelotão’. Daí Rita arremata com: ‘Se eu sou toda ruiva, se sou vivás, que mal há nisso?  Só não gosto de ser mulher, e você sabe porque!’  Estaria aí um recado aos trans-sexuais que estariam no topo da onda no século 21?



edição norte-americana de 'La vostra Rita'

edição italiana de 'La vostra Rita'
CONCLUSÕES:

Considerações finais sobre ‘La vostra Rita’:  Depois de analisar as faixas desse LP ‘para crianças’, cheguei a incrível conclusão de que o tema central do disco é uma violência desbragada.

Em ‘Mosquito’ ela é um pernilongo que não vai dar paz a seu torturador.

Em ‘3 Porquinhos’ há sempre a ameaça dos gordos porquinhos serem devorados vivo pelo Lobo Mau.

Em ‘Col Chicco’ é um ogro que quer comer os meninos mal-comportados, numa alusão inegável de pedofilia;

Mamma dammi la panna’ ela vai atirar uma torta na cara da Susana e fazer uma bola com a gordura e péle de galinha, uma combinação devéras nojenta;

em ‘Somos todos por um’ ela jura morte aos opressores e professores;

em ‘Porque dois não faz três’ é a mãe que surra as crianças [‘scappacioni’ significa ‘dar um pé n’ouvido’, o proverbial tapa na cara];

em ‘Camelo’, o Arrás quase mata seu camelo de sêde, atrás dos raptores de sua amada... a violência comendo solta;

Gian Burrasca’ é chamado de cataclisma, tempestade e até de Nero, o imperador tresloucado que botou fogo em Roma, além de mandar matar sua própria mãe para ver o útero de onde ele tinha saído;

em ‘Orazi e Curiazi’ a violência sanguinária adquire contornos gráficos com o desmembramento dos irmãos e a evisceração da irmã;

em ‘Bersagliere’ ela confessa que não está contente com seu sexo e queria, na verdade, ser homem e ainda por cima, cabo de uma corporação militar!

Das 12 faixas, apenas duas, ‘Io cerco la Titina’ e ‘Con un poco di zucchero’ não há violência implícita ou explícita.  Uffa!





NON STUZZICATE LA ZANZARA – RCA Italiana
Never released: March 1967


1. Questo nostro amore [Wertmüller-Enriquez] versão longa
2. La Svizzera [Wertmüller-Canfora]
3. Non è difficile fare lo Shake [Wertmüller-Canfora] com Giulietta Masina
4. Una notte intera [Eine ganze Nacht] Loose-Last- Wertmüller-Misselvia
5. Perchè due non fa tre [Amurri-Marchetti]
6. Gira gira [Reach out I’ll be there] Holland-Dozier-Holland-Cassia
7. Tu guardi lei [Wertmüller-Canfora]

1. Non ci sto [Wertmüller-Canfora] with Giancalo Giannini
2. Sempre più su [Melfa-Morina]
3. Bye bye baby [Jules Styne-Leo Robin]
4. Balletto degli ombrelli [Bruno Canfora]
5. The birth of the blues  [DeSylva-Brown-Henderson]
6. Gimme some lovin’ [Steve Winwood]
7. Questo nostro amore Wertmüller-Enriquez] Una notte intera
[Loose-Last-Wertmüller-Misselvia] instrumental



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