quinta-feira, 10 de março de 2011

7. RITORNA

R I T O R N A –  RITA PAVONE –  BBL-178   lançamento:  Abril 1965

1.  Viva la pappa col pomodoro [Lina Wertmüller-Nino Rota] – Viva a sopa c tomate
2.  San Francesco [San Francisco de Asis] [Lake-Green-Marmion; Migliacci]
3.  Lui  [Franco Migliacci-Luis Enriquez-Franco Zambrini] - Ele
4.  Lipstick on your collar [Edna Lewis-George Goehring] – Batom no colarinho
5.  L’amore mio [Remember me] [Shelly Coburn; v.: Migliacci]  O meu amor
6.  Wait for me [Sylvia Dee-Arthur Kent] – Espere por mim

1.  La forza di lasciarti [A.Bernabini] – A força de te deixar
2.  Splish splash [Bobby Darin-Jean Murray]
3.  Baby [When ya kiss me] [Jackie DeShannon-S.Sheeley] quando você me beija
4.  Pel di carota [Franco Migliacci-Ennio Morricone] – Cabelo de cenoura
5.  Sei la mia mamma [Lina Wertmüller-Nino Rota] – Você é minha mãe
6.  Scrivi! [Lady Love] [Charlie Rich; v.: Carlo Rossi] – Escreva!

“Ritorna’ é o album ‘Frankenstein’ de Rita. Quarto LP lançado no Brasil, foi apressadamente ‘costurado’ nas oficinas da RCA Victor, para coincidir com o retorno de Rita Pavone ao nosso país, na última semana de Abril de 1965.

Na Argentina o ‘Ritorna’ tem um correspondente em ‘Volvió la Pecosita’ [A sardentinha voltou], ‘montado’ nas mesmas condições. Há fãs que gostam mais do ‘Volvió’ [meu caso] e outros que gostam mais do ‘Ritorna’ [Enrique Rabaudi, um fã argentino].  Talvez seja o caso de gostarmos do disco que não temos em nossa coleção.

‘VIVA LA PAPPA COL POMODORO’ era a abertura e o carro-chefe da série televisiva ‘Il giornalino di Gian Burrasca’ [O diário de João Furacão], baseado em livro homônimo, lançado no início do sec. XX, contando a história de um menino levado-da-bréca, da burguesia italiana do final do século 19. A certa altura da narrativa, Giannino é interno de um colégio, no qual está havendo uma rebelião contra a ditadura do diretor, que impõe a fome aos pobres alunos.  O texto de Lina Wertmüller, que adaptou a obra de Vamba para a TV e disco, teria conotações esquerdistas, com o verso: ‘a barriga que ronca é causa do complô, é causa da luta, ‘abaixo o diretor’, a sopa nos foi cortada, agora exigimos a papa de tomate!’  A série foi sucesso absoluto na Itália, exibida entre Dezembro de ’64 e Fevereiro de ’65. Foram lançados um LP da trilha-sonora e um 45 rpm, mas aqui no Brasil nós não sabíamos do que se tratava, e a RCA, tampouco, fêz questão de explicar. Há um texto na contra-capa de ‘Ritorna’, mas somente com chavões. Rita bem que tentou convencer o público do Teatro Record, de que esse era seu grande sucesso, fazendo com que a platéia a cantasse com ela, mas não convenceu, pois ninguem entendeu patavina.  Ah, Anton Karas toca cítara na introdução e interlúdio. Karas ficou famoso pela trilha-sonora de ‘O terceiro homem’ [The third man], filme de 1949, baseado em conto de Graham Greene, tendo vendido mais de milhão do tema principal.

‘SAN FRANCESCO’ – versão de ‘San Francisco de Assis’, musica norte-americana, composta em espanhol. Versão feita por Franco Migliacci, letrista-coringa, pois servia a quase tudo;  desde a letra original de ‘Volare’, passando pela ‘Pantera cor-de-rosa’ [Meglio stasera], em parceria com Henry Mancini, até ‘Tintarella di luna’ [Banho de lua]. Rita a gravou acompanhada por the Rokes, o conjunto inglês, lançado na Itália por Teddy Reno, que ficaria muito famoso a partir do advento da musica 'beat’ em 1966.  The Rokes que acompanharam Rita na excursão do verão de 1963, nunca haviam gravado com ela.  Aqui eles tocam todos instrumentos e cantam ao ‘background’.  É uma oração ao famoso santo dos pobres e desamparados, pedindo a ele que a ajude a manter o amor do namorado. Aqui no Brasil fêz sucesso, lançado em Janeiro ’65, logo após ‘Sul cucuzzolo’/‘Bianco Natale’, uma época que tudo que Rita Pavone tocava virava ouro.

‘LUI’ [Ele] –  foi o grande ‘trunfo’ de Rita na 2ª tournee sul-americana. Migliacci se ajuntou a Enriquez e a Zambrini, que era o letrista favorito de Gianni Morandi, para fazerem essa pequena obra-prima. ‘Lui’ tinha tudo para ‘emplacar’ no Brasil, mas ‘morreu na praia’.  A música italiana já estava perdendo seu encanto por essas paragens, ou talvez a RCA Victor já não estivesse ‘boa das pernas’, pois Bobby Solo [Chantecler] e Pino Donaggio [Odeon] ainda reinavam por aqui.  Na verdade não lançaram ‘Lui’ em compacto, e sim ‘Viva la pappa’, que não tinha nada a ver para quem não tivesse assistido a série na TV. Rita a cantou ao vivo em suas apresentações no Teatro Record, de São Paulo, e a levou para o ‘Cantagiro 65’, apresentando-a, inclusive, em Moscou, e acabou vencendo o certame de verão.

‘LIPSTICK ON YOUR COLLAR’ [Batom no colarinho] –  Rita gravou para ‘Small Wonder’, seu 2º LP norte-americano, que não foi lançado aqui ou Argentina. ‘Lipstick’ tinha sido sucesso na voz de Connie Francis em Junho de 1959, inclusive tendo tido versões nas vozes de Selma Rayol, irmã do Agnaldo, e de Mina, na Itália.  A gravação de Rita está ‘moderna’, com introdução de pandeiro [novidade na época] e metais para marcação de ritmo, mas a gravação de Francis é uma obra-prima do rock nascente, com um solo de guitarra no interlúdio de se ‘babar’.  É o drama de uma garôta que vai ao baile com o namorado; ele diz que vai buscar um refrigerante, demora um pouco e volta com mancha de batom no colarinho;  logo em seguida aparece Mary Jane, sua melhor amiga, toda descabelada e com batom espalhado nos lábios.  Uma tragédia de bailinho magistralmente narrada pela letrista Edna Lewis.

‘L’AMORE MIO’ [O meu amor] – olha outra versão do Migliacci! Desta vez de 'Remember me' [Lembre-se de mim] o maior sucesso de Rita nos Estados Unidos [chegou ao 27o posto na Billboard].  Há fãs que gostam mais desta versão que o original em inglês. Fez muito sucesso na Italia, sendo lado B de ‘San Francesco’, que acabou sendo um compacto com dois lados A [double-sided hit].  Rita cantou essa canção no Studio Uno 1965, no qual contracenou com as famosas alemãzinhas [ou seria alemãzonas?] Gêmeas Kessler. É irônico que a versão diz: ‘Você pode ter tudo, a vida não vai te negar nada, mas há só uma coisinha que você nunca terá, que é o meu amor...’  Talvez ela esteja se ‘vingando’ da ‘esnobada’ que recebeu no original ‘Remember me’ [vide LP # 3].

‘WAIT FOR ME’ [Espere por mim] – o 2º compacto de Rita lançado nos U.S.A. Uma balada muito bonita, que conta a historia de uma menina apaixonada por um cara mais velho; ela pede encarecidamente que ele ‘espere por ela’;  o mesmo drama de ‘Non ho l’età [per amarti]’, que revelou Gigliola Cinquetti no Festival di San Remo de 1964.  Nos anos 2000 ficamos sabendo que, na verdade, essa musica foi escrita por uma garôta norte-americana apaixonada pelo Paul McCartney, baixista-galã dos Beatles. Ela enviou letra e musica para a RCA, que respondeu dizendo que a menina teria que pagar para a ‘edição’ da música. Como a garôta não tinha dinheiro, acabou desistindo. A RCA ‘editou’ a canção no nome de Sylvia Dee & Arthur Kent, e Rita Pavone gravou. A menina só descobriu que a musica dela tinha sido roubada, quando assistindo ao ‘Ed Sullivan Show’, viu uma italianinha interpretando sua música.  É a música da Rita  [em inglês] favorita do Enrique Rabaudi. Talvez porisso ele goste tanto do LP ‘Ritorna’, pois não saiu na Argentina.

‘LA FORZA DI LASCIARTI’ é lado B de ‘Lui’, mas deveria ter sido A. Uma composição super- inspirada de A. Bernabini, o mesmo autor de ‘Non è facile avere 18 anni’; um play back super-moderno, um solo de saxofone de dar inveja a qualquer jazzista, e uma interpretação das melhores de Ritin.  Ainda bem que é abertura do lado B do LP, o que já confere um certo ‘lugar-de-honra’ que ela não teve no 45 rpm. Rita grita e bérra... mas sempre junto com os instrumentos que sopram à mil por hora... um sucesso total.

‘SPLISH SPLASH’ é outro ‘prato requentado’ [vide ‘Lipstick on your collar’], pois originalmente gravada pelo autor Bobby Darin [Robert Waldon Cassotto é seu nome real] em Agosto de 1958. É música onomatopéica, pois o título se refere ao barulho da água da banheira do cara que estava tomando banho num sábado a noite. Tocam a campainha, ele se levanta, envolto numa toalha, abre a porta e seus amigos invadem o apartamento com a intenção de fazerem alí um baile. Ele pula de volta à banheira e quando termina, vê que a sala já foi tomada pelos ‘teens’, e a bagunça é geral, com gente dançando por todo canto. Darin faz menção a vários nomes famosos como [Long Tall] Sally, [Good God] Miss Molly, Peggy Sue, ‘Lollipop’, etc. Onomatopéica e metalingüística, pois menciona, já em ’58, os principais rocks da época, que acabaram fazendo história. Como se percebe, a versão de Roberto Carlos [1964] não tem nada a ver com o original, embora não tenha sido má idéia associar o som ‘splish splash’ com o barulho de um beijo, e de um tapa subsequente; continuou a ser onomatopéica, mas sem a história embutida do Rock’n’Roll. O mais interessante é que a parceira de Bobby aí foi Jean Murray, uma velha senhora, mãe de Murray the K, disc-jockey fomoso de New York nos anos ’50. Rita interpreta bem, mas com muita dificuldade, dada a difícil tarefa de cantar um número ‘up-tempo’[rápido], numa lingua que não é dela. Dá dó da ‘Pintadinha’, quando ela diz: ‘in my living-room rug’ [no tapete da minha sala-de-estar]... é um ‘tongue-twister’ [de dar nó-em-língua] de difícil enunciação. Rita foi usada e abusada nos U.S.A. Ainda bem que ela ‘puxou o carro’. Aquilo não daria futuro a ninguém.

‘BABY’ [When ya kiss me] -  Quarta música tirada de “Small Wonder’, 2º LP de Rita nos U.S.A. Essa, uma pérola, escrita pela cantora-compositora Jackie DeShannon. Jackie foi rockeira de 1ª hora, tendo sido namorada de Eddie Cochran, e feito parte da troupe que ia se apresentar no show de 3 de Fevereiro de 1959 – ‘o dia que a música morreu’ – Buddy Holly, Big Bopper e Richie Valens morreram na caída do avião que os levavam até lá. DeShannon escreveu jóias do tipo ‘Every time you walk in the room’ [The Searchers], e o ‘mega-hit’ ‘Bette Davis eyes’ [1981]. Visitou o Brasil em 1957, com a troupe ‘Rock’n’roll fantasy’, usando pseudônimo de Jackie Dee, no primeiro show de rock que o país assistiu.  Era considerada a ‘Elvis Presley-de-saias’, embora se apresentasse de calças compridas. Rita consegue uma interpretação magnífica, mesmo sendo a música de dificil andamento [up-tempo]. A gravação de DeShannon é mais lenta, e com sabor ‘Country & Western’, ao passo que a de Rita tem mais sabor ‘Latino’;  talvez pela percursão, metais ‘a la mariachi’ do maestro Sammy Lowe, e a interpretação quasi ‘a la Carmen Miranda’ de Rita.

‘PEL DI CAROTA’ [Cabelo de cenoura] – música composta especialmente para Rita por Franco Migliacci e Ennio Morricone, pois fala de seu cabelo cor-de-cenoura e suas fatídicas sardas. Uma de suas primeiras gravações, talvez feita para ‘Alta Pressione’. Embora Rita a tenha cantado ‘ao vivo’ no Teatro Record, em 1964, ela nunca tinha sido lançada no Brasil, pois foi preterida por ‘Cuore’ em seu 1º LP. É um tipo de música-resposta a alguém que a ‘censurou’.  Nesse caso, o rapaz diz que não quer saber dela, pois ela tem cabelo de cenoura... e ela responde: ‘Você tampouco é muito belo e nem cheio de virtudes, mas já se sabe que quem ‘despreza, comprará’...  em outro trecho ela diz:  ‘Que me importa se eu tenho cabelo de cenoura, é melhor a cabeça toda avermelhada do que a cabeça toda vazia...’.  Morricone bolou um arranjo interessante, com um apito, que só se ouve em escolas de samba do Rio de Janeiro.

‘SEI LA MIA MAMMA’ – é o lado B do compacto-simples ‘Viva la pappa’, do seriado televisivo.  Uma balada doce e suave, onde o João Furacão [Gian Burrasca] despeja todo amor filial à sua mãezinha querida. Nino Rota, o rei das melodias, nunca falha em apresentar algo encantador, podendo ser a trilha-sonora de ‘Romeu e Julieta’ [A time for us] ou do ‘Grande Chefão’ [Where do I begin?]. Nino Rota era rei. E Lina Wertmüller a rainha das letras sensíveis.  Só poderia dar numa obra-prima.  Rita homenageou todas as mães do Brasil [1965] e a sua própria, que sempre a acompanhava em suas viagens ao Patropí.

‘SCRIVI!’ termina esse LP Frankenstein.  Original composto e gravado por Charlie Rich, cantor-compositor de Nashville, como ‘Lady Love’. Rich conseguiria seu maior sucesso em 1974 com ‘The most beautiful girl in the world’. Rita consegue repetir a façanha de ‘Cuore’, ou seja, a versão ficou melhor que o original. É uma simples mensagem ao seu amor distante, pedindo a ele que escreva; ‘basta uma palavra, para não me fazer mais sofrer’. O texto é simples, mas o arranjo é intricado. É um ‘tour-de-force’ entre Rita e o coral ‘4+4’ da Nora Orlandi, que fazem um ‘call-and-response’ do começo ao final da gravação. Começa baixinho, com palmas marcando o rítmo, vai subindo aos poucos, com um acorde ‘diminuto’ para enriquecer a melodia, terminando num paroxismo que resvala aos ‘revivals’ evangélicos dos negros do Sul dos U.S.A.  Nota-se também o piano grave do maestro Enriquez Bacalov. Esse foi o segundo maior sucesso de Rita no Brasil, o qual ela lançou ao vivo no palco do Teatro Record, acompanhada pelos talentosos Clevers: Mingo,  Manito, Risonho, Neno e Netinho, que fariam sua tournee italiana do Verão de 1964.  Saiam os Rokes, entravam os Clevers.  Muito sagáz.



8. VOLVIÓ LA PECOSITA

1. Scrivi [Lady love] Charlie Rich; v.: Carlo Rossi – Escribe
2. If you got a mind to [P.Barret-R.Mangeri] – Si quisieras
3. Splish splash [Bobby Darin-J.Murray] – Plif, Plaf
4. San Francisco de Asis [Lake-Green-Marmion; v.: Migliacci]
5. Baby [When ya kiss me] Jackie DeShannon-Sheeley
6. Tango della scuola [Lina Wertmüller-Nino Rota] Tango de la escuela

1. Viva la pappa col pomodoro [Lina Wertmüller-Nino Rota]
2. Lipstick on your collar [E.Lewis-C.Goehring] – Rouge en tu cuello
3. Turn her down [B.Raleigh-M.Bargan] - Despídela
4. Sei la mia mamma [Lina Wertmüller-Nino Rota] Eres mi madre
5. Rubber ball [A.Orlowski-A.Schroeder] – Pelota de goma
6. Pido paz [Just once more] Al Western;  v: Jorge Renner


lançado na Argentina:  Abril 1965.


Em Junho 1964, Rita aparecia na TV e radios dos EEUU para divulgar seu primeiro LP em inglês e o 45 rpm ‘Remember me’, que não passou do 28º lugar da Billboard, em 4 junho 1964.  Na America Latina, em compensação, Rita era sensação com ‘Datemi un martello’ no topo da parada em varias capitais. De New York ela voou à Buenos Aires onde se apresentou com grande sucesso, tendo sido recebida na Casa Rosada pelo Presidente Arturo Illia.  Em São Paulo e Rio de Janeiro poucas vêzes um cartaz internacional teve tanta aceitação pública, excetuando-se Nat ‘King’ Cole em 1959, que encheu dois Maracanãzinhos e vários Paramounts. Rita não foi recebida pelo presidente do Brasil pelo simples fato de que dois meses antes, Abril ’64, tinha havido um Golpe Militar que derrubou o dinâmico presidente João Goulart, para colocar em seu lugar um general golpista baixinho, sem pescoço e de pouco charme.

Quase um ano depois, Abril/Junho de 1965, Rita volta para mais uma tournee sul-americana.  A RCA Victor do Brasil lançou ‘Ritorna’, em comemoração à sua 2ª visita. A Argentina lançou ‘Volvió da Pecosita’ [Voltou a Pintadinha]. A popularidade da italianinha continuava no auge, embora em 1965 ela já não estivesse mais no 1º lugar das paradas no Brasil.  Na Argentina, no entanto, Rita continuava em 1º lugar com ‘Pido paz’, versão em espanhol de ‘Just once more’. Os argentinos talvez fossem os maiores fãs de Rita Pavone fora do território italiano.

A RCA da Argentina, que tinha como diretor Rafael Abud, um homem de visão, conseguiu com ‘Volvió la Pecosita’ fazer um album bem internacional, tendo usado 6 faixas do ‘Small Wonder’, 2º album norte-americano de Rita;  2 faixas em lingua espanhola;  3 faixas tiradas do LP italiano ‘Gian Burrasca’, sendo que ‘Tango della scuola’ foi especialmente escolhida por ser um tango, a paixão nacional argentina; ‘Scrivi’ era ‘sobra’ do ano anterior, mas uma gravação de altíssima qualidade.

‘Ritorna’ [brasileiro] e ‘Volvió da Pecosita’ [argentino] são similares. Vejamos: ‘Ritorna’ é um terço ‘Small Wonder’ [4 faixas]; 2 faixas do LP ‘Gian Burrasca’; algumas ‘sobras’ de LPs ou compactos-simples como ‘Lui’/’La forza di lasciarti’, o lançamento mais recente de Rita na Itália, que ainda entraria na competição Cantagiro ’65 nos meses seguintes.

Qual LP ficou melhor?  Depende do fã. Eu gosto mais do ‘Volvió la Pecosita’ por causa de ‘Turn her down’, ‘If you got a mind to’ e ‘Rubber ball’, que considero ótimas. A inclusão de ‘Tango della scuola’ tb. deixou o LP portenho espetacular, além das gravações em língua espanhola, que deu-lhe uma singularidade especial. No entanto há fãs que gostam mais do ‘Ritorna’ [brasileiro], como nosso colega argentino Enrique Rabaudi, que tem um preferência especial por ‘Wait for me’. Talvez fora o caso de gostarmos do disco que não tínhamos em nossa coleção.

Me lembro da primeira vez que vi [e ouvi] o LP ‘Volvió la Pecosita’, importado da Argentina.  Era de Silvia Jentsch, uma colega de Fã-Clube Rita Pavone, da Vila Mariana [São Paulo]. Fui à sua casa, na Vila Clementino, e me deparei com essa raridade.  As músicas que mais me chamaram a atenção foram aquelas que eram inéditas no Brasil e continuariam sendo durante muito tempo.


‘SCRIVI’ [Lady love] – abrindo o LP um sucesso do ano anterior.  Não sei se foi grande sucesso [exito] na Argentina.  Aqui no Brasil, Rita a apresentou em primeira mão no ano anterior, acompanhada por The Clevers, que depois a acompanhou em tournee pela Italia. Vide comentários em ‘Ritorna’.

‘IF YOU GOT A MIND TO’ – Si quisieras – Uma faixa bem movimentada. É dificil escutá-la e ficar parado, principalmente o interlúdio super-incrível que Charles Callelo bolou.  É realmente uma pena os brasileiros não a terem conhecido.  É o convite de uma garota estimulando o namorado a ‘ir em frente’:  ‘Se você quiser, pode me abraçar, pode me beijar’.  Na ‘bridge’, Rita arraza com a indecisão do mancêbo:  ‘Se você continuar esperarando muito eu vou ficar velha de cabelos brancos.  Por que você demora tanto?’  Pensando bem, o 2º LP americano de Rita é bem mais ‘saidínho’ [avançadinho sexualmente] que o 1º.

‘SPLISH SPLASH’ – Plif-plaf – No Brasil tinha sido sucesso na voz de Roberto Carlos antes de ele se tornar uma celebridade a partir do programa Jovem Guarda, iniciado em agosto de 1965.  A gravação de RC no entanto não tinha nada a ver com o original. O arranjo de Teacho Wiltshire é ótimo com trombones e trumpetes bem ao gosto desse maestro. Vide comentários em ‘Ritorna’.

‘SAN FRANCISCO DE ASIS’ – Já conhecia ‘San Francesco’ [vide ‘Ritorna’] acompanhada pelas lindas guitarras [quase portuguesas] dos Rokes.  No entanto, nessa gravação cantada em espanhol, Rita é acompanhada por uma orquestra inteira dirigida por Luis Enriquez.  É bonitinha, mas os rockeiros, mais uma vez, passam longe dessa faixa. É muita santidade para jovens adolescentes com hormônios enlouquecidos.  Tá certo que o santo era simpático e até ecologista, mas ninguém é de ferro para aguentar tanta xaropada!

‘BABY’ [When ya kiss me] – Quando você me beija – Orquestra dirigida por Sammy Lowe, com uma interpretação singular, cheia de ‘oo lah lahs’ e ‘ma ma yê’s, que não deixam de ser simulações de orgasmos ou quasi-orgasmos. A autora é Jackie DeShannon, broto rockeiro apelidada de ‘Elvis de saias’ nos idos 1957, quando ela aportou aqui na America do Sul, parte de uma troupe chamada Rock’n’roll Fantasy que apresentou o novo rítmo fascinante às platéias ao sul do Rio Grande.

‘TANGO DELLA SCUOLA’ – Tango de la escuela – Essa foi a faixa que mais causou sensação entre os fãs, principalmente Silvia, a dona do disco, que era fã de tangos.  Eu tinha sido fã de tangos quando menino, talvez mais pelas orquestrações do que as letras que eu não  entederia. Não sabíamos que esse ‘Tango de la escuela’, como os argentinos o chamavam, era parte da mini-série ‘Il giornalino di Gian Burrasca’, uma obra completa. Sabíamos que havia alí uma revolta contra um sistema escolar tirânico, mas não sabíamos que era uma história passado no início do século XX.

‘VIVA LA PAPPA COL POMODORO’ – Viva la sopa con tomate – Faixa tirada da mesma mini-série de ‘Tango della scuola’, embora não houvesse maiores informações na contra-capa do LP.  É um hino à rebelião geral.  Joãozinho Furacão se rebela contra a tirania da hierarquia escolar, organiza seus colegas internos em protesto contra a qualidade da comida servida [uma papa de pão molhado com pedaços de tomates]. ‘La pancia che borbota è causa del complotto è causa della lotta, abasso il diretor!’  'A barriga que ronca é a causa do complô, é a causa da luta, abaixo o diretor!'  Convite à revolta e a derrubada do poder constituído.  Uma obra devéras revolucionária, tendo um lado cômico.

‘LIPSTICK ON YOUR COLLAR’ – Rouge en tu cuello – vide ‘Ritorna’ – Connie Francis levou ‘Lipstick...’ ao # 5 da Billboard em 1º Junho 1959 e Selma Rayol [irmã do Agnaldo] gravou a versão ‘Batom no colarinho’ logo depois.  Mina tb. gravou uma versão na Italia. Aqui Rita serve um ‘prato requentado’, mas com arranjo bem moderno para 1965, com a introdução de pandeiro-sem-o-couro-do-arco, que era a ultima moda na musica pop.  Os metais do maestro Charles Callelo também acentuam o rítmo com gosto.

‘TURN HER DOWN’ – Despídela – com arranjos de metais do fabuloso maestro Teacho Wiltshire, essa é minha faixa preferida [em inglês] do disco.  É a garota dando conselho ao namorado dizendo que ele tem que ‘dizer não’ a outra que se apaixou perdidamente por ele. 'Não é sua culpa se você pensava que a amava e agora mudou de sentimentos.  É melhor você terminar com ela o mais rapido possivel, pois assim ela sofrerá menos'.  Depois do interlúdio Rita canta: ‘Sometimes de ways of love are very strange but if you put it up, a-what will you gain?’  'As vezes o amor é estranho, mas de que adianta v. segurar essa barra?   E os metais comendo solto no back-ground.

‘SEI LA MIA MAMMA’ – Eres mi madre –  É uma valsinha lenta sobre a meiguice da mãe do Giannino. Bonita, mas não para rockeiros que simplesmente pulavam essa faixa, como o diabo foge da cruz ou um vampiro de restilhas-de-alhos e crucifixos.

‘RUBBER BALL’ – Pelota de goma – Apesar de ser ‘anacrônica’, pois Bobby Vee a levou ao # 6 da Billboard em 12 Dez 1960, o arranjo de Charles Callelo é sensacional desde o início, com tambores lembrando o movimento de uma bolinha-de-borracha que pula p’ra-lá-e-p’ra-cá na mão do namorado que a faz de boba.  O coral vai repetindo ‘bouncy-bouncy’ [repeteco-repeteco]... e a garota reclamando que 'até seu coração já se estica igual uma borrachinha elástica [rubber-band].  Você me aperta até eu ficar tôda encendiada... e igual a uma bolinha de borracha eu sempre volto saltitando a você'.  O tema sexual continua forte.

‘PIDO PAZ’ – Just once more – ‘Peço paz’, gravado aqui por Wanderléa, que apesar de ter um registro vocal totalmente diferente da Pintadinha, conseguiu passar à gravação o mesmo ‘desepêro’ sexual da original.  Casal de namorados no cinema tirando o maior sarro da paróquia. Daí Rita grita: ‘Peço paz’... pedindo ao rapaz que modere em suas carícias, pois ela já não está mais agüentando – ‘Encuanto empieza anochecer comienzas con tus besos, me dás tu amor con tal passión que pienso enloquecer - no sigas, ya es demasiado amor’.  Mais adiante o namorado a convida a ir ao cinema:  ‘a la mitad de la función me quiero levantar, gritando’... isso pressupõe que a garôta deve ter tido um orgasmo e quer se levantar no meio da sessão de cinema.  Essa é a musica mais sexual que Rita gravou.  Orgasmos múltiplos é o assunto principal.



Compactos-simples de Rita Pavone lançados na Argentina:

1. La partita di pallone / Come te non c’è nessuno
2. Il ballo del mattone / Abbiamo 16 anni
3. Cuore / Alla mia età
4. Non è facile avere 18 anni / Son finite le vacanze
5. Wenn ich ein Junge wär’ / Sul cucuzzolo
6. Datemi un martello / Che m’importa del mondo
7. Somigli ad un’oca / Quando sogno
8. Remember me / Just once more
9. Pido Paz [Just once more] / Te imploro amor [Remember me]
10. Scrivi / Ti vorreri parlare
11. L’amore mio / San Francesco
12. Lipstick on your collar / Splish splash
13. Viva la pappa col pomodoro / Sei la mia mamma
14. Viva las papas con tomate / No lo puedo olvidar [Lui]
15. Lui / La forza di lasciarti
16. Supercalifragilistic espiralidoso / Plip
17. Stasera con te / Solo tu
18. Qui ritornerà / Il geghegè
19. Fortissimo / La sai troppo lunga
20. Gira gira / Mamma dammi la panna
21. Questo nostro amore / La zanzara


Pesquisando a lista de compactos-simples lançados na Argentina cheguei a estarrecedora conclusão de que Rita teve mais singles lançados na Argentina do que na Italia, seu país de origem.  Poderia-se dizer, então, que Rita fez mais sucesso no Prata do que na Península?

A discografia argentina é incrívelmente diversificada tendo singles em alemão [‘Wenn ich ein Junge wär’], em espanhol [‘Pido paz’, ‘Viva las papas con tomate’], além de ‘anomalias’ do tipo ‘Somigli adun’oca’/’Quando sogno’ e ‘Lipstick on your collar’/’Splish-splash’, que não sairam como single em lugar algum do mundo.

Os argentinos foram mais leais à Pintadinha que os brasileiros, que depois de ‘Ritorna’ não lançaram mais nada durante mais de um ano [1965/1966].  Na Argentina lançou-se ‘Solo tu’/’Stasera con te’ [aqui totalmente ignorados], além de ‘Questo nostro amore’, tema-principal do filme ‘Não brinque com o mosquito’, que não deu o ar da graça por essa paragens.

Aqui abaixo há uma comparação entre os singles argentinos e italianos. O período vai de 1963 a 1967, quando Pavone deixou a RCA Italiana e foi gravar na Ricordi.  Não estão incluídos os 45 giri ‘promocionais’ ou os três 45 giri que a RCA Italiana lançou depois da partida dela da multinacional norte-americana.





Argentinos                                                        Italianos

1. La partita.../ Come te non c’è nessuno         La partita / Amore twist
2. Il ballo del mattone / Abbiamo 16 anni         Come te... / Clementine
3. Cuore / Alla mia età                                     Alla mia età / Pel di carota
4. Non è facile... / Son finite le vacanze             Cuore / Ilballo del mattone
5. Wenn ich ein Junge wär’ / Sul cucuzzolo       Non è facile.... / Son finite...
6. Datemi un martello / Che m’importa...           Datemi un martello /Che m’importa
7. Somigli ad un’oca / Quando sogno                Scrivi / Ti vorrei parlare
8. Remember me / Just once more                     L’amore mio / San Francesco
9. Pido Paz / Te imploro amor                           Viva la pappa / Sei la mia mamma
10. Scrivi / Ti vorreri parlare                              Lui / La forza di lasciarti
11. L’amore mio / San Francesco                      Plip / Supercalifragilistic
12. Lipstick on your collar / Splish splash           Solo tu / Stasera con te
13. Viva la pappa... / Sei la mia mamma             Il geghegè / Qui ritornerà
14. Viva las papas... / No lo puedo olvidar         Fortissimo / La sai troppo lunga
15. Lui / La forza di lasciarti                               La zanzara / Perchè 2 non fa 3
16. Supercalifragilistic espiralidoso / Plip             Mamma panna / Col chicco
17. Stasera con te / Solo tu                                Gira gira / Dove non so
18. Qui ritornerà / Il geghegè                              Questo nostro amore / Una notte...
19. Fortissimo / La sai troppo lunga                    Non dimenticar le mie parole /
20. Gira gira / Mamma dammi la panna    
21. Questo nostro amore / La zanzara

9. STASERA RITA

STASERA RITA  -  BBL 190       lançamento:  Dezembro 1966

1.  Supercalifragilistic-espiralidoso [R.M. & R.B.Sherman; Antonio Amurri-Pertitas]
2.  Stasera con te [Lina Wertmüller-Leo Chiosso-Franco Pisano]
3.  Plip [Franco Migliacci-Gianni Meccia-Mantovani]  A dança do Plip
4.  My baby left me [Arthur Crudup]  Meu benzinho me deixou
5.  Right now [Wilbur-Masher-Teddy Randazzo]  Agora mesmo
6.  Hip hip hurrà [Johann Strauss; adapt: Carlo Rossi] Pique pique, é hora, é hora!

1.  Solo tu [Lina Wertmüller-Luis Enriquez]  Só você
2.  Occhi miei [Carlo Rossi-Marcello Marrocchi]  Olhos meus
3.  Orazi e Curiazi [Carlo Rossi-Marcello Marrocchi-Lanati] Irmãos Orazi e Curiazi
4.  La bretella [Lina Wertmüller-Leo Chiosso-Lelio Lutazzi]  Os suspensórios
5.  Strong love [D.Malone-E.J.Silvers-M.Brown]  Amor forte
6.  Il treno [This train] [Peter Yarrow-Paul Stookey; v. Mogol]  O trem


Quinto LP de Rita Pavone lançado no Brasil.  ‘Esta noite, Rita’, era o título do programa de TV que foi ao ar durante 4 sábados, iniciando em 13 Novembro 1965. Como Rita havia dominado a telinha com a série ‘Il giornalino di Gian Burrasca’ no Inverno 64/65, a Radio e Televisão Italiana (RAI) apostou na Pintadinha para mais uma temporada vitoriosa.  Chamou Antonio Falqui, produtor experiente de ‘Studio Uno’,  para produzir esse ‘aperitivo’ antes da estréia de ‘Studio Uno 66’, que, por sinal, também traria la Pavone no comando.  Rita não dava um passo em falso naquele época, tendo ganhado o ‘Cantagiro 65’ com ‘Lui’.  terminando 1965 com chave de ouro.  Falqui associou-se a Lina Wertmüller, diretora de ‘Gian Burrasca’, e decidiram apresentar uma Rita ‘rockeira’ para um publico jovem que aumentava a cada ano na Itália.

Lógicamente, nós aqui no Brasil não sabíamos de nada que acontecia do lado de lá do Atlântico. Aqui, Rita ficava cada vez mais ausente do radio e ‘media’ em geral, sendo que esse LP foi lançado somente em Março de 1967, um ano e meio mais tarde.

‘SUPERCALIFRAGILISTIC – ESPIRALIDOSO’ começa mal o LP, pois não faz parte do LP original, muito menos do programa de TV. A RCA Victor daqui resolveu incluí-la em lugar de ‘Lui’, já que esta tinha sido parte de ‘Ritorna’, o 4º LP de Rita. Supercalifragilistic-espiralidoso’ seria uma ‘palavra mágica’, que Julie Andrews pronuncia, quando queria que coisas estupendas acontecessem com as crianças da qual ela era babá, numa Londres fantástica do século 19. Tudo isso no filme ‘Mary Poppins’, do estudio Walt Disney, que trouxe um Oscar para a linda atriz-cantora inglesa em 1964. Precisou de Antonio Amurri & Pertitas, dois letristas, para fazerem a versão para o italiano do original dos irmãos Sherman [R.M. & R.B.]. Ennio Morricone fêz os arranjos, o que não consegue salvar a gravação do fracasso. Repertório mal escolhido dá nisso.  Aqui foi lançada em compacto-simples;  chegou a tocar no radio, mas não ‘decolou’.  Em tempos de ‘Rubber soul’ e ‘Revolver’, dos Beatles; ‘Between the buttons’ e ‘Beggar’s Banquet’, dos Rolling Stones, Rita Pavone, a rainha da Juventude Internacional, aparecia com essa coisa irritante para debilóides.  Passo mal dado.

‘STASERA CON TE’ – sim, esqueçam a 1ª faixa, pois, na verdade, o disco começa aqui. Linda melodia de Franco Pisano, que abria o show, com arranjos e regência de Ennio Morricone e participação dos Cantores Modernos de Alessandroni. Linda balada, introduzida com um repique de bateria espetacular, muitos violinos e violoncelos e um coro feminino maravilhoso no interlúdio. Rita a gravou também em espanhol e catalão, mas aqui no Brasil, ela ficou ‘escondida’ no LP, que foi lançado sem nenhuma divulgação. Não tocou nas radios.

‘PLIP’ – todo Sábado havia um quadro especial para as criaças, no qual Rita apresentava um número para consumo da platéia infantil. ‘Plip’ era uma nova dança que Rita ensinava ‘ai bambini’, onde os dedos das mãos faziam parte da coreografia, enquanto os pés iam em outra direção.  ‘Tóque o polegar com o mindinho da outra mão, daí com o mindinho dessa mão, tóque o polegar da primeira, e assim vai se alternando ...’ O 45 rpm ‘estourou’ chegando ao 1º lugar na 1ª semana de Janeiro 66. Talvez, por isso a RCA Italiana pensou que Rita deveria gravar um LP inteiro para esse público infantil, o que, realmente, aconteceu com ‘La vostra Rita’.

‘MY BABY LEFT ME’ – sucesso que Elvis Presley gravou em compasso ‘rock-a-billy’ nos primórdios de sua carreira. Rita, aqui, dá um tratamento ‘heavy-metal’, com a ajuda dos Talismen, conjunto ‘beat’ inglês, então radicado na Península. Há uma introdução ‘pauleira’, pura doideira. Rita entra cantando com voz-dupla, ela com ela mesma. Resultado: impressionante.

‘RIGHT NOW’ – linda balada escrita por Teddy Randazzo, cantor teen ítalo-americano que surgiu nos USA na mesma época de Paul Anka e Neil Sedaka, inclusive tendo estado no Brasil em maio de 1959. Randazzo também era compositor e arranjador, acompanhando Rita com sua orquestra, em gravação feita em New York.  Rita canta em inglês, mas também apresentou no programa de TV uma versão em italiano, de título ‘Che vuoi’, que não aparece no microssulco.

‘HIP HIP HURRÀ’ – adaptação em rítmo de rock de ‘Conto dos Bosques de Viena', famosa valsa de Johannes Strauss, que Rita já tinha gravado nos U.S.A., como ‘I’ll wait and wait’, para o ‘Small Wonder’, seu 2º LP norte-americano, e ‘Mein Jack, der ist zwei Meter gross’, para o mercado alemão. Aqui é acompanhada pelos Talismen novamente.

‘SOLO TU’ – é o ponto alto do disco. Letra de Wertmüller para lindíssima melodia de Luis Enriquez, acabou tornando-se um dos seus maiores sucessos, inclusive tendo gravado-a em Londres, como ‘You only you’, para o mercado britânico. ‘Solo tu’ aparece na trilha-sonora de ‘Rita la figlia americana’, que Rita filmou no verão de 1965, com Totò e The Rokes. Começa com o famoso ‘baixo italiano’, aquele que só se consegue fazer na Península, e o estalar de dedos para marcar o compasso. Rita entra: ‘Amore, mi chiedo se in questo momento, ti senti anche tu tanto male...’Há o tocar triste de uma gaita, que vai se insinuando até o interlúdio, quando o gaitista explode num solo de causar arrepios; a música sobe meio tom e Rita ataca com côro e orquestra, num climax digno de qualquer clássico italiano popular.

‘OCCHI MIEI’ – outra linda melodia, que poderia muito bem ter ido para o 1º lugar em qualquer parada de sucesso, mas ficou meio que obscura entre tanta coisa boa. Começa com arpejo de guitarra  e uma gaita, suave desta vez. Rita entra calma, para ‘enlouquecer’ na 2ª parte. Rita gravou-a em inglês nos EEUU com o título de ‘Eyes of mine’, sendo seu ultimo 45 rpm na terra do Tio Sam. Enza Flori ouviu  o 45 rpm norte-americano, e gravou-a em italiano [olhando a letra da partitura] para a Chantecler, com acompanhamento dos Jet Blacks, o melhor conjunto de guitarras brasileiro da época.

‘ORAZI E CURIAZI’ –  esse rock foi apresentado na ‘sessão das crianças’ – antes de elas irem p’ra cama – Rita conta a história de seis irmãos que eram gladiadores de Roma antiga. Para quem ainda lembrava-se das aulas de Latim do antigo ginasium, dava para entender um pouco, pois trata-se da ‘terra d’ Albalonga’.  O Latim, como matéria de 2º grau, havia caído em 1962. Na 1ª série ginasial [atual 5ª série], antes de começar a ensinar as cinco declinações, a professora contava a lenda de Rômulo e Remo, e a fundação de Roma. Na Italia, o Latim demorou mais tempo para cair. Hoje só é ensinado [pasme] na Alemanha. Nora Orlandi e seu coral ‘4+4’ ajudam na interpretação, acompanhadas pela orquestra de Ruggero Cini.

‘LA  BRETELLA’ – mais uma canção onde Rita é o próprio personagem. Depois de ‘Pel di carota’ [Cabelo de cenoura] e ‘Le lentiggini’ [As sardas], é a vez de Rita cantar sobre seus famosos suspensórios. Acompanhada dos Talismen, a letra de Wertmüller fala das benesses de se usar suspensórios. The Talismen arrazam com suas guitarras e o coral misto faz uma harmonia, que até parece musica folclórica portuguêsa.

‘STRONG LOVE’ – mais um rock ‘pauleira’ [como se dizia nos anos 60], com the Talismen mandando braza com suas guitarras infernais. Rita canta [duplo] num tom baixíssimo, tanto que se pensava que não era ela e sim um rapaz. Esse mistério nunca foi resolvido. Talvez Rita tenha gravado em rotação alterada e The Talismen tenham colocado play-back posteriormente. Original do Spencer Davis Group, um dos grupos mais conceituados do rock britânico daquele tempo.

‘IL TRENO’ – para terminar um LP rockeiro, nada melhor que essa versão de ‘This train’, composta por Peter Yarrow & Paul Stookey, que Peter, Paul & Mary gravaram para seu 1º album para a Warner Brothers, lançado em 1962. Trini Lopez a incluiria em seu ‘Folk album’ em 1964. Qualquer semelhança com o histórico de ‘If I had a hammer’ [Datemi un martello] é mera coincidência. ‘If I had a hammer’ foi gravada primeiro por Peter, Paul & Mary, depois por Trini Lopez e Rita por último, o mesmo acontecendo com ‘This train’. Rita e the Talismen transformaram uma musica ‘folk’ em um blues-rock bem compassado, com uma longa introdução de guitarras elétricas. Rita revela toda sua verve de ‘blues singer’ nessa viagem sobre trilhos.

link para o site dos Talismen:

http://www.thetalismen.co.uk/gallery/index.htm


Contra-capa do 'Stasera Rita' lançado na Italia.  No Brasil a contra-capa era bem mais pobrezinha.


Essa é a capa do LP italiano, já que no LP brasileiro 'Supercalifragilistic-espiralidoso' é a 1a. faixa do lado A... 


10. RITA, O MOSQUITO

RITA, O MOSQUITO    BBL 205    RCA Victor   –   lançamento:  Junho 1967

1.  La zanzara [Wertmüller-Gaspari-Marcello Marrocchi-Lanati] – O mosquito
2.  Il geghegè  [Lina Wertmüller – Bruno Canfora] – O geghegé
3.  Fortissimo  [Lina Wertmüller – Bruno Canfora]
4.  Qui ritornerà [Here it comes again] [Reed-Mason; v.: Nistri]-Aqui retornará
5.  Strong love [D.Malone-E.J.Silvers-M.Brown] – Amor forte
6.  Passione [Bovio-Valente-Tagliaferri] – Paixão

1.  Quanto sei antipatico [Wertmüller – Bruno Canfora] – Como v.é antipático
2.  ...E se domani [Giorgio Calabrese-Carlo Alberto Rossi] - ... E se amanhã
3.  I want to be loved by you [Stolhart-Harry Ruby-Bert Kalmar] – Quero ser amada
4.  I like you very much / Chica chica boom chic [Harry Warren-Mack Gordon]
5.  Io cerco la Titina [Daniderff] – Estou procurando a Titina
6.  La sai troppo lunga [Claroni-Enrico Ciacci] – Você sabe demais
7.  No, no, no [David Shapiro] – Não, não, não


o 5º LP de Rita Pavone lançado no Brasil, tem algo de único. É a única trilha-sonora de filmes de Rita lançada em qualquer lugar do mundo, com exceção de ‘Little Rita nel West’, lançada somente na Itália. Não se sabe como a RCA do Brasil teve essa idéia inovadora, já que a direção da gravadora nunca foi muito brilhante. Mas neste caso, deu mostra de genialidade, ao juntar num LP uma seleção tão fantástica. Talvez tenham se espelhado na Odeon, que lançou ‘Os Reis do Yé Yé Yé’, trilha-sonora de ‘A Hard Day’s Night’, dos Beatles. Isso é só especulação, já que no caso dos Beatles, a trilha-sonora já veio pronta da Inglaterra, ao passo que o LP ‘Rita o mosquito’ foi montado aqui no Brasil.

‘O mosquito’ foi o filme de maior bilheteria de Rita, mas é, na verdade um 'pastiche’ [pelo menos na área dos numeros musicais] dos programas televisivos ‘Stasera Rita’ [Outono de 1965] e ‘Studio Uno’ [Primavera de 1966]. Rita começou com a prática de imitar divas do cinema em Studio Uno 66. Ambos programas tiveram participação direta de Lina Wertmüller na produção musical, portanto muito natural que tivessem passado para a telona [um público mais abrangente] o que tinham feito para a telinha. Lina Wertmüller, sob o pseudônimo de George Brown, dirigiu Rita e introduziu Giancarlo Giannini, seu protegido, no papel do professor Dr. Jekyll & Mr. Hide, já que ele era um sonolento mestre de um internato de adolescentes de dia, e um rockeiro ‘cabeludo’ de noite. A película foi rodada na cidade de Nápoles, durante o Verão de 1966, e lançado no Outono do mesmo ano. Aqui no Brasil foi lançado em Junho de 1967.

A faixa título ‘LA ZANZARA’ [O mosquito] é um rock sem muita novidade, com guitarras estridentes e uma Rita mais estridente ainda.  O que se pode esperar de algo relacionado a pernilongos? Só zumbidos de toda espécie. Na verdade ‘La Zanzara’ era o nome do jornalzinho do colegio interno no qual Rita estudava [e aprontava]. Lina Wertmüller, compôs essa ‘maravilha’ com a ajuda e outros três. Uffa!

‘IL GEGHEGÈ’ –  rock de Wertmüller e do maestro Bruno Canfora é mais inspirado, com uma certa semelhança ao tema de abertura de Batman, a série com Adam West, que tanto sucesso fazia em 1966.  Na verdade ‘Il geghegé’ era a abertura do Studio Uno 66, sendo aproveitado para o filme. Geghegé é uma palavra inventada [por Wertmüller] que quer dizer ‘qualquer coisa’.  É um ‘non-sense’ total... mas de bom efeito.

‘FORTISSIMO’ talvez seja a obra-prima de Rita.  Talvez a musica mais linda gravada pela torinesa. Foi, originalmente, composta por Lina Wertmüller e Bruno Canfora, para o numero de encerramento semanal de Studio Uno 66;  como ‘Soli’ [do mesmo Canfora], com Mina, foi o tema de encerramento de Studio Uno 65. Tanto Lina como Canfora trabalhavam para a RAI, portanto nada mais natural que continuassem a parceria no filme realizado no Verão, a ‘estação baixa’ da programação televisiva.

‘QUI RITORNERÀ’ [Here it comes again] –  o lado B do 45 giri ‘Il gehegé’ é uma versão muito feliz do original dos Fortunes, conjunto inglês ‘beat’. Rita canta em ‘dupla’ consigo mesma. É mais um exemplo da versão suplantando o original, como ‘Cuore’ e ‘Scrivi’. Na película, Rita canta enquanto passeia de bicicleta pelas ruas ensolaradas de Napoles, em companhia de suas colegas de internato, sem supervisão de ninguem.

‘STRONG LOVE’, originalmente gravado pelo Spencer Davis Group, de Birmingham, um dos melhores conjuntos ‘beat’ e ‘rhythm & blues’ britânicos. No caso aí, Rita, que fugia do internato para cantar em ‘inferninho’ frequentado por ‘cabeludos’ e roqueiros, ganha o coração do ‘mestre’ Giannini, cantando esse rock infernal. Usando uma peruca loirissima, Rita, sardenta, se transformava numa ‘gata’ e estraçalha os corações dos ‘bofes’ locais. Quando batia meia-noite, Rita saía correndo de volta ao internato, numa alegoria a la Cinderella. Note que esta gravação de Rita é ‘left-over’ [sóbra] de ‘Stasera Rita’, seu programa televisivo do outono de 1965, onde ela era acompanhada pelos Talismen, conjunto ‘beat’ inglês residindo na Itália então.

‘PASSIONE’, canção tradicional napolitana dos anos 30, aqui revivida magistralmente pela Pavone, cantando no dialéto local. Rita voltaria a usar a mesma fórmula, gravando sucessos dos anos do Fascismo, como ‘Non dimenticar le mie parole’ [1967] e ‘Pippo non lo sà’ [1968].

‘QUANTO SEI ANTIPATICO’ é fenomenal. Particularmente é minha música favorita do LP, batendo até a famosa ‘Fortissimo’. Aliás, se pensarmos bem, ‘Antipatico’ seria uma ‘continuação’ de ‘Fortissimo’. O andamento ‘Canforiano’ do piano é encantador. Só Wertmüller com sua sensibilidade poderia ter escrito tal jóia. Nunca lançada em lugar algum do mundo exceto nesse LP.

‘... E SE DOMANI’, sucesso de Mina, a quem Rita [Santangelo] imita no filme, quando fica imaginando maneiras de conquistar o professor Giancarlo Giannini. ‘Mina’, altissima, vestida toda de negro, a câmera pegando-a num ângulo de baixo-para-cima, para dar a ilusão de ‘altura’. Rita faz um trabalho espetacular, inclusive ‘gozando’ a pronuncia ligeiramente ‘americanisada’ de Mina. Um primor. Além de tudo, a música é inspiradora. ‘... E se domani’, originalmente apresentada em San Remo em 1964, por Fausto Cigliano e Gene Pitney, não foi classificada. Mina, que assistia tudo pela TV, de seu quarto de dormir, anotava quais músicas que mais lhe agradavam, para depois gravá-las na Ri-Fi. Mina gravou-a, e levou-a ao 1o lugar... e Rita usou-a em seu filme technicolor. Perfeito.

‘I WANNA BE LOVED BY YOU’ [Eu quero ser amada por você], composição da década de 20, que Fred Astaire e Red Skelton cantaram em 1949, no filme ‘Three little words’, da MGM, que contava a história dos compositores Ruby & Kalmar, com Debbie Reynolds balbuciando a famosa frase ‘boop-boop-ee-doo’. Marilyn Monroe a cantou em 1959, na comédia ‘Quanto mais quente melhor’ [Some like it hot], de Billy Wilder. Rita aqui faz uma imitação da performance de Monroe.

‘I, YI, YI, YI, YI’ – ‘I LIKE YOU VERY MUCH / CHICA CHICA BOOM CHIC’ – duas musicas transformadas em uma só, ambas de ‘That night in Rio’ [1941], primeiro [e talvez o melhor] filme de Carmen Miranda para a 20th Century-Fox. ‘I like you very much’ fica como introdução orquestral, e a onomatopéica ‘Chica chica boom chic’ [imitação do ritmo do samba] é cantanda inteira por Rita, imitando Carmen Miranda. Pena que faltou algum brasileiro em Roma, que corrigisse os erros de português della Pavone, já que ela diz: ‘TENGO saudade da Bahia’...

‘IO CERCO LA TITINA’ – é Rita imitando Charlie Chaplin, em sua encarnação de Carlitos.

‘LA SAI TROPPO LUNGA’ é ‘sobra’ do Studio Uno ’66. Escrita por Enrico Ciacci, irmão do cantor  Little Tony, e exímio músico de estudio [session musician], além de membro de La Cricca, resposta italiana aos Les Surfs. Ciacci abre a gravação com uma guitarra de 12 cordas, seguido de trombones, num numero bem marcado. Em ‘Studio Uno’ Rita lançava uma nova dança, chamada ‘see-saw’ [gangorra].

‘NO, NO, NO’ é sobra mais antiga ainda, pois é do filme ‘Rita la figlia americana’, no qual ela contracena com The Rokes, conjunto inglês radicado na Italia. A gravação aqui no disco é dos Rokes, mas na trilha-sonora do filme é cantada pelo Giancarlo Giannini, que eu, particularmente, acho melhor.





 contra-capa de 'Rita, o Mosquito'

Obs.:  Note que ‘Rita o mosquito’ foi o ultimo LP de Rita lançado no Brasil pela RCA Victor. Tres anos se passaram até a Chantecler lançar ‘Zucchero’, que foi o último longa-duração de Rita por aqui até meados dos anos 70.  Portanto, poderíamos afirmar que ‘Rita, o mosquito’ foi seu último disco no Brasil em sua 1ª e mais importante fase.  O sonho terminou aqui para os fãs brasileiros.  Muitos [fãs] a abandonaram para sempre, alguns persistiram em sua paixão pela estrêla italianinha que conquistara o Brasil em 1964 e foi se apagando aos poucos até chegar ao quase esquecimento.  O tempo não para, como dizia Cazuza... ou ‘the times they are a-changing’ como dizia o Bob Dylan.




Rita Pavone e Gianni Morandi no set de 'Rita, o mosquito' - Laura Efrikian, mulher de Morandi, é uma das alunas do Colegio Maria Adelaide.

 

11. LA VOSTRA RITA / Não brinque com o mosquito

L A   V O S T R A   R I T A –  S-10

lançamento na Itália: 1966 
nunca lançado no Brasil.

1. La zanzara [Wertmüller-Gaspari-Marrocchi-Lunati] Luis Enriquez; Alessandroni
2. I tre porcellini [Who’s afraid of the Big Bad Wolf?] Frank Churchill-Ann Ronell; v.: Misselvia
3. Col chicco [Castellano-Pipolo-Pisano] Franco Pisano; Alessandroni
4. Mamma dammi la panna [I saw Linda yesterday] Dickey Lee-A.Reynolds; v.: Bonicatti
5. Siam’ tutti per uno [Wertmüller-Rota] Luis Enriquez e orquestra + il Coro di Voci Bianche diretto da Renata Cortiglione
6. Io cerco la Titina [Daniderf-Frati] Franco Pisano e orchestra; Alessandroni

1. Perchè due non fa tre [Amurri-Marchetti] Gianni Marchetti; Alessandroni
2. Cam cam cammello [Migliacci-Gianni Meccia]  Luis Enriquez; Alessandroni
3. Gian Burrasca  [Libertà] Lina Wertmüller-Nino Rota - Luis Enriquez e orchestra
4. Con un poco di zucchero [A spoonful of sugar] R.M.Sherman-R.B.Sherman; v.: Amurri-Pertitas
5. Orazi e Curiazi [Carlo Rossi-Marrocchi-Lunati] Ruggero Cini; 4+4di Nora Orlandi
6. Il bersagliere [Carlo Rossi-Marrocchi-Lunati] The Talismen; 4+4 di Nora Orlandi

Me lembro bem o dia que recebi o vinil 33 giri de ‘La Vostra Rita’ de um pen-pal italiano em 1966. Apesar de já conhecer um terço do album, ‘La zanzara’, ‘Perchè due non fa tre’, ‘Gian Burrasca’ (que estranhamente veio com novo sub-título, ‘La libertà’ no selo e contra-capa) e ‘Orazi e Curiazi’, eu gostei do disco.  Apesar de esperar algo que representasse mais minha idade de adolescente do que canções para crianças, eu gostei de várias faixas, a começar pela 'swingada' 'I tre porcellini', o yê-yê-yê ‘Mamma dammi la panna’ e a fantástica ‘Cam cam cammello’ que tem uma bonita melodia.

Muitos ‘pavonologos’ acham que Rita se ‘perdeu’ artisticamente quando começou a dar muita importância ao seu público infantil em detrimento de jovens adolescentes que fora seu público inicial. Rita ‘descobriu’ o público infantil a partir da exibição da mini-série ‘’Il giornalino di Gian Burrasca’’ (O diário de João Furacão’), no qual ela interpretava um menino levado-da-breca no início do século XX. Mais tarde no mesmo ano, ela estreava ‘Stasera Rita’, seu próprio show na TV, onde havia um segmento para crianças (bambini),  onde ela interpretava uma ou duas canções infantis.

O problema de Rita e seu empresário é que o ‘tempo não para’ e a juventude italiana estava se sofisticando com a invasão dos conjuntos ingleses denominados de ‘beat’. Em fevereiro de 1966, aparece Caterina Caselli, sensação do Festival di San Remo, com uma ‘atitude beat’ e uma cabeleira loura (oxigenada) imitando o corte de cabelo dos Beatles. Conjuntos beat italianos, como Equipe 84 , the Rokes, I Giganti etc. passavam a dar a tônica para uma juventude mais sofisticada. Rita e seu empresário pareciam perdidos em seu 'romance secreto’. O público jovem procurava um símbolo de rebeldia... principalmente com as explosões anti-establishment que aconteceriam em 1968, o ano que parecia reprisar 1848. Rita contudo, ia cada vez mais se ‘refugiando’ em seu público ‘giovanissimo’.  Um erro fatal.

No final de 1967, Rita dá o passo mais errado de sua carreira. Iludida pela ‘luva’ (muitos milhões de liras) oferecida ao seu ‘passe’ pela Ricordi, ela abandona o ‘estábulo’ da RCA Italiana – com os melhores produtores e arranjadores da Península – transferindo-se para uma gravadora muito menor. Rita ganhou a batalha, mas perdeu a guerra. Na Ricordi, entre 1967 e 1969, um período que não cobriremos, Rita persistiu no erro de gravar para crianças. Esse foi o prego final no caixão de sua carreira, que se afundou e nunca mais se recuperou.

‘La vostra Rita’, em 1966, no entanto, apesar de ser um album para crianças, foi muito bem produzido, diferentemente de suas gravações da Ricordi, que eram ‘meia-boca’, como se diz na gíria. Bem, esqueçamos as elucubrações sobre a carreira de Rita e vamos, então disseca-lo faixa por faixa?

‘LA ZANZARA’ – velha conhecida nossa, tema de abertura do filme homônimo [vide ‘Rita o mosquito'].

‘I TRE PORCELLINI’ – Who’s afraid of the Big Bad Wolf? – o acompanhamento de piano não deixa de lembrar as produções de Dozier & Lamont para The Supremes da Motown.  É a historinha famosa dos três porquinhos e suas peripécias para escapar do Lobo Mau que está sempre à espreita para comer os fffos suínos.

‘COL CHICCO’ -  história fantástica meio parecida com o conto do pé-de-feijão que cresce e vai dar no céu, onde há um gigante. Aqui é uma semente de uva que plantada na terra vai nascer uma vinha. Dessa vinha, pegue uma uva magica e vá lá dentro da floresta onde mora um ogro horrível que fala com uma voz cavernosa: ‘Sinto cheiro de crianças... e vou comer os meninos mal-comportados!’ Daí, Rita dá o conselho para que as crianças comam a uva mágica para que o ogro desapareça. Em tempos atuais em que a pedofilia está escancarada na Internet, seria perigoso uma música desse teor onde o ‘ogro diz abertamente que vai comer meninos!’  Não soa muito bem aos ouvidos!

‘MAMMA DAMMI LA PANNA’ – versão de ‘I saw Linda yesterday’, sucesso mediano de Dicky Lee, tendo chegado ao posto #14 da revista Billboard, em 29 Dezembro 1962. O arranjo italiano está bem parecido com o original. Rita pede à mãe que dê-lhe a torta que acabou de assar para atirá-la na cara da Susana, que ontem pôs sal no seu chá. Diz ainda que até o filho de Apolo fez, um dia, uma bola com a pele de frango. Como se vê, é um ‘non-sense’ total, mas que agradou a certo público infantil italiano que Rita cortejava nesse período começado seu programa de TV ‘Stasera Rita’ em Novembro de 1965.

‘SIAM TUTTI PER UNO’ – Somos todos por um! – Rita aqui canta com o Coro di Voci Bianche dirigido por Renata Cortiglione.  Vozes brancas? Me parecem ser vozes de meninos. Da mini-série ‘Gian Burrasca’, que não apareceu no LP de mesmo nome, é uma faixa forte. Um hino em que os colegas de Joãozinho Furacão juram fidelidade à sociedade secreta que fundaram para combater a tirania da diretoria do estabelecimento escolar.  O texto é do mais revolucionário possível:‘Juro sempre morte aos opressores! Juro sempre morte aos professores! Juro fidelidade por toda  eternidade a esta honorável sociedade!’

‘IO CERCO LA TITINA’ – a música do ‘Carlitos’ (Charlie Chaplin), que aparece no filme ‘Mosquito’, mas aqui tem um acompanhamento rockeiro, além de uma ‘bridge’ que não tinha na sound-track. Titina dos anos 20 aqui se moderniza, pois parece-se com BB (Brigitte Bardot), usa mini-saia, camiseta e botinhas vermelho-e-azul lembrando a Union Jack (bandeira da Grã Bretanha).

‘PERCHÈ DUE NON FA TRE’ – lado B de ‘La zanzara’.  Não tem nada a ver com ‘Gian Burrasca’, mas também é um protesto duro contra a arbitrariedade dos adultos.  Embora não tão iconoclasta como ‘Siam tutti per uno’, é assim mesmo contundente.  Mas por que os adultos só criticam as coisas que fazemos?  Por que sempre temos que ter superiores?  Se a mãe está com raiva de algo, ela desconta suas frustrações nos dando uns ‘cascudos’? Por que isso é proibido, aquilo é banido e o outro é negado?  E isso não se deve e aquilo não se pode?  Um grito real contra o mundo opressor dos adultos.  Ainda bem que ainda não vivíamos em tempos de Columbine e outros massacres escolares.

‘CAM CAM CAMMELLO’ – A dura história de Arrás, um beduino que vaga pelo deserto com seu camelo à procura de sua namorada que fora raptada.  Mais dura que a vida de Arrás, era a vida do camelo que se consumava com a falta de água.  Musica do excelente Gianni Meccia [vide ‘Non c’è un pò di pentimento’ em ‘Meus 18 anos’] e letra do omnipresente Migliacci.

‘GIAN BURRASCA’ – (Libertà) – estranhamente ‘Gian Burrasca’, do album de mesmo nome lançado em janeiro de 1965, aqui aparece com outro título. Explicação? Nunca soube o porque disso!  João Borrasca, não é justo, não,  se apresente aos telespectadores da mini-série dizendo os vários apelidos pelos quais ele é conhecido:  me chamam de cataclisma, ciclone, tempestade, furacão e até de Nero, o imperador romano louco.

‘CON UN POCO DI ZUCCHERO’ (A spoonful of sugar) – Com um pouco de açucar – Versão italiana de ‘A spoonful of sugar’ que Julie Andrews [en]canta no filme ‘Mary Poppins’. Diferentemente da horrorosa ‘Supercalifragilisti...’ tem melodia bonita e agradável ao ouvido.

‘ORAZI E CURIAZI’ – vide ‘Stasera Rita’ – música já comentada anteriormente.  Obviamente aqui veio para ‘encher’ o LP.  Aliás, um terço desse album é feito de ‘enchimentos’... como dizem os brasileiros: uma encheção de lingüiça da grossa.  Orazi eram três irmãos e os Curiazi irmãos de outra família.  Quando os romanos ocuparam a Terra d’Alba Longa, invés de assassinarem a população inteira, o estado-maior romano decide fazer uma luta mortal na arena local entre esses infelizes rapazes para saber quem sobreviveria.  Acontece que a irmã de um dos Orazi se apaixona por um galante dos Curiazi.  Em plena batalha empunhando lança, espada, escudo, tridente, rêde e flechas e tendo o Curiazi já deitado na areia quente, o malvado Orazi grita: ‘Trucide não apenas o Curiazi, mas nossa irmã também!’  E enfia a espada na barriga dos dois.  Alguns dizem que a violência é grande nos dias de hoje.  Imagine nos tempos romanos!  Ah, esse tipo de texto era considerado ‘infantil’ nos anos ’60.  Se bem que se pensarmos que, nos anos ’60, os norte-americanos jogavam toneladas de bombas Napalm incendiárias em crianças vietnamitas, até que os romanos não eram tão malvados assim.

‘IL BERSAGLIERE’ – O tropa especial – Pela segunda vez em seu cancioneiro, Rita Pavone declara abertamente que gostaria de ter nascido homem.  Em ‘Si fossi un uomo’ [Se eu fosse homem] – vide ‘Meus 18 anos’ – Rita queria ser um ‘centro-avante internacional’.  Aqui ela diz que gostaria de ser um soldado de um batalhão especial.  A certa altura ela canta:   ‘Se eu tivesse nascido homem eu seria um cabo da tropa-especial que toca corneta no pelotão’. Daí Rita arremata com: ‘Se eu sou toda ruiva, se sou vivás, que mal há nisso?  Só não gosto de ser mulher, e você sabe porque!’  Estaria aí um recado aos trans-sexuais que estariam no topo da onda no século 21?

edição norte-americana de 'La vostra Rita'.
edição italiana de 'La vostra Rita'
CONCLUSÕES:

Considerações finais sobre ‘La vostra Rita’: Depois de analisar as faixas desse LP ‘para crianças’, cheguei a incrível conclusão de que o tema central do disco é uma violência desbragada.

Em ‘O mosquito’ ela é um pernilongo que não vai dar paz a seu torturador.

Em ‘3 Porquinhos’ há sempre a ameaça dos gordos porquinhos serem devorados vivo pelo Lobo Mau.

Em ‘Col Chicco’ é um ogro que quer comer os meninos mal-comportados, numa alusão inegável de pedofilia;

‘Mamma dammi la panna’ ela vai atirar uma torta na cara da Susana e fazer uma bola com a gordura e pele de galinha, uma combinação deveras nojenta;

em ‘Somos todos por um’ ela jura morte aos opressores e professores;

em ‘Porque dois não faz três’ é a mãe que surra as crianças (‘scappacioni’ significa ‘dar uns pé-n’ouvido’, o proverbial tapa na cara);

em ‘Camelo’, o Arrás quase mata seu camelo de sede, atrás dos raptores de sua amada... a violência comendo solta;

‘Gian Burrasca’ é chamado de cataclisma, tempestade e até de Nero, o imperador tresloucado que botou fogo em Roma, além de mandar matar sua própria mãe para ver o útero de onde ele tinha saído;

em ‘Orazi e Curiazi’ a violência sanguinária adquire contornos gráficos com o desmembramento dos irmãos e a evisceração da irmã;

em ‘Bersagliere’ ela confessa que não está contente com seu sexo e queria, na verdade, ser homem e ainda por cima, cabo de uma corporação militar!

Das 12 faixas, apenas duas, ‘Io cerco la Titina’ e ‘Con un poco di zucchero’ não há violência implícita ou explícita.  Uffa!


NON STUZZICATE LA ZANZARA – RCA Italiana
Never released: March 1967
lançado privadamente em CD na Itália: 2014

1. Questo nostro amore [Wertmüller-Enriquez] versão longa
2. La Svizzera [Wertmüller-Canfora]
3. Non è difficile fare lo Shake [Wertmüller-Canfora] com Giulietta Masina
4. Una notte intera [Eine ganze Nacht] Loose-Last- Wertmüller-Misselvia
5. Perchè due non fa tre [Amurri-Marchetti]
6. Gira gira [Reach out I’ll be there] Holland-Dozier-Holland-Cassia
7. Tu guardi lei [Wertmüller-Canfora]

1. Non ci sto [Wertmüller-Canfora] with Giancalo Giannini
2. Sempre più su [Melfa-Morina]
3. Bye bye baby [Jules Styne-Leo Robin]
4. Balletto degli ombrelli [Bruno Canfora]
5. The birth of the blues  [DeSylva-Brown-Henderson]
6. Gimme some lovin’ [Steve Winwood]
7. Questo nostro amore Wertmüller-Enriquez] Una notte intera
[Loose-Last-Wertmüller-Misselvia] instrumental


sexta-feira, 4 de março de 2011

12 Ci vuole poco ... S-24

C I   V U O L E   P O C O...   S-24

1. Una notte intera (Eine ganze Nacht) G. Loose- J. Last; Ital.wds.: Wertmüller-Misselvia
2. Gira gira (Reach out I’ll be there) Holland-Dozier-Holland; Ital.wds.: Cassia-Cenci
3. Qui ritornerà (Here it comes again) Reed-Mason; Italian words: Nistri
4. Fortissimo (Lina Wertmüller-Bruno Canfora)
5. Gimme some lovin’ (Steve Winwood)
6. Tu guardi lei (Lina Wertmüller-Bruno Canfora)
7. Questo nostro amore (Wertmüller-Enriquez) w/ Luis Enriquez; I Cantori Alessandroni

1. Ci vuole poco (Perretta-Corima-Franco Pisano)
2. Stop, stop, stop (Allan Clarke-Hicks-Graham Nash; Ital.wds.: Mogol)
3. Per una come me (Morina-D’Ercole-Melfa)
4. Il geghegè (Lina Wertmüller-Bruno Canfora)
5. La Svizzera (Lina Wertmüller-Bruno Canfora)
6. La sai troppo lunga (Claroni-Enrico Ciacci)
7. Dove non so (Lara's Theme) – Maurice Jarre-P.S. Webster; Ital.wds: Migliacci-Vassalo



13 Little Rita nel West

LITTLE  RITA  NEL  WEST

1.  Little Rita  (Roberto Gigli-Gianni Musy)
2.  Piruliruli  (Rosario Leva-Gianfranco Reverberi-Dalla) Rita with Lucio Dalla
3.  Ma che te ne fai?  (Giuseppe Cassia-James Ireson)
4.  Rita sei tutti noi  (Roberto Gigli-Gianni Musy-Gigli)  Rita with Teddy Reno
5.  Per un colpo di pistola  (Roberto Gigli-Gianni Musy)

1.  Tu sei come  (Roberto Gigli-Gianni Musy)
2.  Balletto indiano  (Roberto Gigli-Guycen)
3.  Uno sceriffo che si rispetti (Cassia-Cicerone-Carlo Scartocci) sung by Teddy Reno
4.  Ma che te ne fai?  (Giuseppe Cassia-James Ireson)  ripresa (reprise)
5.  Little Rita  (Roberto Gigli-Gianni Musy)  finale

Guycen è lo pseudonimo di Guido Cenciarelli